O Homem que usava burca

Foto: Divulgação
João, prestes a completar 50 anos, divorciado, procurou ajuda psicoterapêutica para tratar de uma estranha obsessão. Depois de apresentar um seminário sobre Revolução do Irã e os preceitos religiosos do islamismo, a burca passou a ser seu objeto de desejo. Toda tarde, vestia o traje longo que deixava os olhos descobertos, e caminhava pela orla da cidade. Sentia prazer e algum desconforto com o clima quente.
Perturbações físicas, dores de cabeça e dores abdominais eram o sinal diário para acender o desejo de vestir a burca. Mudava a roupa e era tomado por uma plenitude, na qual não havia espaço para constrangimentos. Ao caminhar, João tinha certeza de que uma parte sua ficava isolada no apartamento, um João triste, sombra de um passado criado para não parecer indesejável.
Enquanto caminhava, enfrentava sem medo o mundo de julgamentos e preconceitos. Ao ouvir comentários jocosos e perceber a malícia nos olhares dos que cruzavam seu caminho, João era tomado por uma louca sensação de liberdade, um impulso de não ter de agradar alguém pra se sentir feliz. Ele reconhecia a maldade alheia, mas não precisava ser complacente.
Algumas mulheres o fitavam com desconfiança e até mencionavam o temor de um atentado terrorista. Numa tarde, um homem parou o carro e fez um chamado para que ele entrasse, com gestos obscenos e um sorriso malicioso. Intrigado, o homem de burca olhou fixamente o motorista e pensou que as ações inescrupulosas escondem pedidos de atenção. João continuou sua caminhada.
Na praça, crianças jogavam bola sem dar muita atenção a quem passava. João parou para brincar com os meninos. A única pergunta que ouviu foi sobre o calor daquele traje preto e longo. Percebeu que a liberdade que sentia com a burca era algo que se aproximava dessa alegria infantil. Era isso que ele que desejava.
Ao expor seu estranho desejo e refletir sobre o real sentimento em relação à burca, João passou a questionar muitos impulsos e comportamentos que o acompanharam por toda a vida, mas que aos poucos deixaram de fazer sentido. Aquele homem de burca era uma parte dele que nunca teve lugar ao sol.
Seus medos e desejos, abominados ao longo de décadas, escondiam seu potencial criativo, alegre e humano. João percebeu que passou parte de sua vida vivendo como um robô, vestindo máscaras que serviam para agradar algumas pessoas que ele considerava importantes. Temporariamente aliviado quando usava a burca, ele seguia solitário.⁠⁠⁠⁠

Daniella Sinotti é Terapeuta Transpessoal Sistêmica, jornalista e apresentadora de Rádio. Utiliza clinicamente a abordagem da Terapia Transpessoal Sistêmica (TTS), criada por Jordan Campos. Trata-se de uma terapia intensa e com acesso direto aos conteúdos inconscientes, na qual é utilizada a terapia regressiva, reprogramação mental, iridologia, constelação familiar, física quântica e biopsicossomática.
Locais de atendimento: Empresarial Thomé de Souza – SALA 608 – Av. ACM, 3244 Caminho das Árvores – Salvador – BA

Mundo Zen Terezinha Lopes. Condomínio Amsterdam. Lauro de Freitas.

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