Descasos dos poderes públicos e especulação imobiliária destroem Arembepe

O cenário bucólico, as águas límpidas dos rios, o balanço cadenciado do mar sob um luar que encantou corações e mentes tornaram-se meras lembranças, um cartão postal desbotado na estante de casa e lamento na conversa de nativos e moradores mais antigos de Arembepe, localizada na orla de Camaçari. Se no passado, Arembepe envolvia os (ilustres) visitantes por sua beleza e magia, atualmente foi envolvida, absorvida e destruída pelo histórico descaso dos poderes públicos (nas esferas federal, estadual e municipal) bem como tornou-se refém das práticas nefastas da especulação imobiliária.

“Arembepe é um exemplo de práticas de especulação imobiliária que resultam em empobrecimento dos ecossistemas e paisagens locais. O balneário, bem como outros pontos do litoral norte da Bahia, vem experimentando um processo de urbanização convenientemente mal ordenado ou, em termos ainda mais explícitos, ordenado para o lucro, no qual o aterramento de lagoas de água doce próximas às praias para fins de construção é uma constante”, avalia Fabio Angeoletto,  professor do Mestrado em Geografia da UFMT.

Dia após dia, ano após ano, a flora e fauna de Arembepe foram (e são) destruídas pela ganância do capital estrangeiro e conivência dos órgãos públicos que permitem a degradação ambiental, cultural e histórica do vilarejo. Nomear os culpados é tarefa fácil. Do primeiro prefeito eleito pelo voto, pós-ditadura militar, Luiz Caetano (PT) até o atual prefeito decorativo, Elinaldo Araújo (DEM), todos (eu disse TODOS tem culpa no cartório), bem como o Governo Estadual e Federal, pois os seus órgãos de controle, preservação e fiscalização são totalmente falhos e cegos, assim como o poder judiciário, que permanece de olhos fechados para os constantes crimes ambientais denunciados.

As fotos abaixo foram registradas essa semana por moradores e leitores do Badogada:

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Prefeitos omissos
Em seu primeiro mandato (1985-1988), Caetano falhou no aspecto ambiental e no processo de urbanização. Os erros herdados por José Tude (1989-1992) e Humberto Henrique Garcia Ellery (1993-1996) foram ampliados. Ao retornar à Prefeitura, Tude (1997-2000/ 2000-2002) simplesmente “feriu Arembepe”, com o total desprezo e abandono. Com o tenebroso Helder Almeida (2002-2004) a “ferida” infeccionou.

Ao encontrar uma Arembepe agonizante, Caetano, de volta à Prefeitura (2005-2008/2008-2012), a bem da verdade revitalizou a entrada e melhorou o paisagismo, porém “sangrou” de vez Arembepe ao não ter pulso firme para conter as invasões e a degradação ambiental. O “sangradouro” (talvez a invasão mais trágica e simbólica para Arembepe) continuou a todo vapor na gestão de Ademar Delgado, que mesmo morador da localidade, não conseguiu cuidar do seu próprio “jardim”. Ainda que não tenham sido prefeitos, é preciso distribuir a responsabilidade do caos em Arembepe com os históricos políticos “moradores” , como a deputada estadual Luiza Maia PT), o vereador Marcelino (PT), o secretário municipal de Saúde, Elias Natan (PR), para citar alguns do que acumulam mandatos representativos e nada fazem pelo meio ambiente.

De volta à Prefeitura, Helder e Tude, desta vez “transvestidos” de “parceiro do povo” vão sugar até a última gota de Aremebepe pelo ritmo que os crimes ambientes avançam no vilarejo. Nesta semana, as construções avançaram sem freio. Área de Preservação Ambiental foi destruída, leitos de rios sendo bloqueados e até mesmo o acesso à praia tornou-se privativo. Enquanto todo dia, a população (lamentavelmente) vê caminhões, caçambas, tratores “sangrando” a natureza e acimentando o “verde”, nenhum sinal da Prefeitura de Camaçari.

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O prefeito? A última vez que foi visto em Arembepe foi em outubro para comemorar a eleição. Seis meses depois, nem sinal do “time azul”. A secretária municipal de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SEDUR), Juliana Paes, trazida a preço de ouro de Salvador, como uma “técnica” de extrema competência não disse para que veio. Aliás, chovem queixas de servidores da SEDUR contra a titular da pasta, que na avaliação dos efetivos “acabou com a estrutura física e institucional da Secretaria”, além disso “o péssimo tratamento da Sra. Juliana só faz desmotivar os servidores e impactar, negativamente, no funcionamento do órgão, por isso as invasões só aumentam”, explica um servidor.

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Pesquisa científica comprova degradação ambiental em Arembepe
Em 2015, o Grupo de Pesquisa Espaço, Turismo e Ambiente (GETAM), do curso de Geografia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) realizou um estudo científico sobre a degradação ambiental em Arembepe. Foram selecionados os loteamentos Fonte das Águas e Caraúnas onde se verificou, empiricamente, os casos mais evidentes de degradação ambiental.

De acordo com os pesquisadores, no Loteamento Fonte das Águas, onde existe uma lagoa, foi observado o despejo de águas servidas em vias públicas, justamente porque não há rede de esgoto. Empiricamente, constatou-se casos de poluição difusa desse manancial hídricos, pois materiais como lixo, sedimentos e esgoto são carreados em direção ao corpo d’água por meio do escoamento superficial.

“Ademais, outros dejetos são descartados via fossas biológicas, o que pode trazer prejuízos ambientais para as águas subsuperficiais e subterrâneas, haja vista que a área tem um lençol freático bem próximo à superfície, variando entre 2m e 8m de profundidade”, destaca o estudo.

Ainda sobre o Loteamento Fonte das Águas, os pesquisadores destacam que ele está assentado numa área de dunas. Parte dessa feição geomorfológica foi degradada para construções de imóveis e aterramento de áreas alagadiças e de lagoas, destarte, houve, e ainda está em curso, como verificado in loco, uma considerável alteração na geomorfologia local.

“Já no Loteamento Caraúna foi estabelecido praticamente dentro da área de outra lagoa, que se caracteriza por ter regime intermitente. Isto posto, nos períodos mais secos, sem chuvas, os promotores imobiliários, bem como a própria população, se encarrega de comercializar terrenos ou de construir imóveis, pois não há espelho d’água. Quando inicia-se o período chuvoso, o escoamento superficial de áreas adjacentes se direciona para o nível de base local, onde está o loteamento, somado a isto, o nível do lençol freático ascende à superfície, como resultante, tem-se ruas e casas alagadas, denotando que a degradação ambiental traz prejuízos ao meio ambiente e também à própria sociedade (…). Ademais, também por não ter rede de esgoto e drenagem pluvial, ocorre poluição difusa e, além desta, foi verificada poluição pontual, onde águas servidas são despejadas diretamente na lagoa”, concluem.

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